Ásia além da China: ampliando parcerias comerciais

*Por Verônica Prates

 

Por que pensar além da China?

Em meio aos desafios políticos e econômicos que o Brasil enfrentou em 2015, as previsões pouco otimistas para este e os próximos anos, e a gama de opiniões acerca da melhor forma de reverter o quadro, setor privado e Governo brasileiro ao menos concordam que o cenário é promissor para o comércio exterior e, mais, parte da solução de alguns dos problemas reside no apoio à exportação.

De fato, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro fechou 2015 com uma redução de mais de 3% e a expectativa dos analistas é de contração também em 2016 (Banco Mundial e FMI). A taxa de inflação chegou a alcançar dois dígitos, superando consideravelmente as metas do Banco Central (4,5%). No mesmo sentido, o desemprego voltou a crescer e atingiu mais de 8% no ano passado, e é esperado que permaneça acima de 7% em 2016 e em 2017 de acordo com a Organização Mundial do Trabalho (ILO). Neste contexto, ao final de 2015, o Real figurou entre as moedas mais desvalorizadas do mundo com uma desvalorização total de 33.87% de janeiro a dezembro – superando o Peso argentino (-33,34%) e o Peso colombiano (-23,38%), por exemplo, de acordo com a Bloomberg.

Se por um lado, os dados acima ilustram as diversas dificuldades enfrentadas no mercado interno, indicam também a oportunidade, senão necessidade, de olhar para fora – coisa que o empresário brasileiro médio parece ter se esquecido de fazer, por uma razão ou outra, nos últimos tempos.

Neste sentido, e visando promover uma agenda positiva, o Governo Federal, liderado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) lançou no primeiro semestre do ano passado o Plano Nacional de Exportações (PNE). Segundo o Secretário de Comércio Exterior, Daniel Godinho, “O Plano Nacional de Exportações é uma das janelas de oportunidades criadas pelo governo para expandir a inserção do país na economia internacional.” (Fonte: http://www.barralmjorge.com.br/pagina.php?id=1440).

Os resultados, no entanto, têm sido aquém das expectativas. No acumulado de janeiro a dezembro de 2015, as exportações apresentaram valor de US$ 191,134 bilhões, uma redução de 14,1% em comparação a igual período de 2014. A corrente de comércio alcançou cifra de US$ 362,583 bilhões, representando queda, pela média diária, de 19,2% sobre o mesmo período anterior, quando totalizou US$ 454,255 bilhões. O saldo comercial acumulou superávit de US$ 19,685 bilhões, resultado de uma queda das importações superior a queda das exportações e não de um aumento de exportações como era esperado. No comparativo janeiro a dezembro 2015 e 2014 observou-se decréscimo das vendas brasileiras para os principais blocos econômicos. Ao mercado asiático, as exportações brasileiras apontaram queda de 13,0%. (Fonte: SECEX/MDIC)

As exportações para a China, principal parceiro comercial do país, caíram de US$46 bilhões em 2013 para pouco mais que US$35 bilhões em 2015 (fonte: SECEX/MDIC). Com crescimento de 6,9%, o PIB chinês teve seu pior resultado dos últimos 25 anos em 2015. A atividade industrial e a bolsa de valores do país asiático também já apresentam quedas consideráveis no início deste ano. A divulgação do índice dos gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) da indústria chinesa indica que o setor permanece contraído. O PMI recuou para 49,4 em janeiro de 2016 ante 49,7 em dezembro de 2015, segundo reporta o Valor (fonte), o pior resultado desde 2012. A redução de produção na China tem impacto direto nas exportações brasileiras e os dados indicam que a situação deverá se agravar, sugerindo a necessidade de se falar sobre diversificação de parceiros comerciais.

Não se pretende, neste artigo, fazer um estudo aprofundado sobre a (falta de) cultura exportadora do país, uma avaliação sobre as medidas de apoio à exportação e seu impacto na competitividade de nossos produtos, ou, ainda, discorrer sobre o perfil de cada mercado asiático. Há desafios a serem enfrentados, há muitos artigos sobre o Custo Brasil, e há muitas especificidades de cada empresa, setor e país para apenas um artigo. Mas parte-se do pressuposto, comprovado por reconhecidos casos de sucesso, que há capacidade de exportar no Brasil e se pretende aqui demonstrar que a Ásia oferece outros potenciais parceiros comerciais.

Para onde ir?

Em reunião com os ministros Armando Monteiro (MDIC), Kátia Abreu (MAPA), Nelson Barbosa (Fazenda) e outros membros da sua equipe, a Presidente Dilma Rousseff reforçou a necessidade de aumentar as exportações brasileiras como mecanismo de recuperação econômica e elencou, dentre os mercados prioritários, Índia, Tailândia, Filipinas e Indonésia, segundo reportou a Folha de São Paulo (Fonte: artigo, 16/01).

De fato, com aproximadamente 30% da área terrestre global, a Ásia representa mais de 60% da população do mundo, além de contar com os índices mais altos de crescimento populacional. O Sudeste Asiático apenas representa aproximadamente 9% deste total, sendo que Indonésia, Filipinas, Tailândia e Vietnam representam juntos mais de 50% da população da região (em milhares, ONU – http://esa.un.org/unpd/wpp/Download/Standard/Population/). Vale destacar que as taxas de desemprego na região seguem baixas. Na Tailândia, por exemplo, foi 0.8% em 2014, em Cingapura foi 2% no mesmo ano e em Hong Kong, Vietnam e Coreia do Sul permaneceram abaixo de 4%. Ainda, diferente do Brasil, a taxa de fertilidade naquela região está entre 2-4, indicando que a população naqueles países deverá seguir estável ou crescendo na próxima geração. O mapa abaixo, elaborado com dados do CIA World Factbook ilustra esta afirmação:

Fonte

Além de mercados consumidores atrativos, os países daquela região apresentam também economias promissoras. Com população de aproximadamente 90 milhões de pessoas, o PIB do Vietnam cresceu 6% em 2014, a Índia cresceu 7,3% no mesmo ano e as Filipinas, 6,10%, em comparação com o 0,1% do Brasil. (CIA World Factbook) No ranking do Global Competitiveness Report 2015-2016, Cingapura está em segundo lugar, à frente dos Estados Unidos, da Alemanha e de diversas outras grandes economias.  Hong Kong, Taiwan, Malásia, Coreia, Tailândia, Indonésia e Filipinas também figuram entre os top 50 – enquanto o Brasil ocupada a 75ª posição. O Vietnam, embora ainda na 56ª colocação, avançou 12 posições no último período de análise. Hong Kong está entre os 10 primeiros colocados desde 2012, com performance consistente ao longo dos anos e liderando em infraestrutura, setor financeiro e mercado de trabalho. Ademais, no ranking do Doing Business do Banco Mundial (2015), Cingapura está em primeiro lugar, e Coreia do Sul, Hong Kong, Taiwan e Tailândia estão entre os top 50.

Vale também destacar o potencial para polo de exportações da região. Segundo dados do World Shipping Council (fonte), dentre os 30 maiores portos do mundo em volume de carga em 2013, 21 são na Ásia sendo 11 deles na China e incluindo os portos de Cingapura, Malásia, Japão, Taiwan, Indonésia, Tailândia, Vietnam. Por comparação, o porto de Santos, o maior da América Latina, ocupava até então a 38ª posição no ranking dos maiores 50 do mundo.

A despeito das condições gerais comuns e positivas, a diversidade econômica, política e cultural da região não pode ser ignorada. Ao contrário, deve ser compreendida e aproveitada. A título de exemplo, a Índia, país majoritariamente hindu dentre os países mais populosos do mundo, vem apresentando resultados bastante otimistas em relação à sua economia. Segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), o PIB indiano correspondeu a uma expansão de 7,3% em 2015, sendo considerado um dos países que mais cresce no mundo. Segundo especialistas, esta prospecção se deve principalmente às reformas demandadas pelo primeiro-ministro do país, Neranda Modi, para atrair investimentos. Ainda assim, as exportações do Brasil para a Índia tiveram um crescimento tímido entre 2013 e 2015 de US$3,1 bilhões para US$3,6 bilhões (SECEX/MDIC).

Com 68 milhões de habitantes, por outro lado, a Tailândia posiciona-se entre os três maiores exportadores mundiais de arroz, borracha, açúcar e carne de frango. A última década foi marcada pelo forte ingresso de investimentos que permitiram inserir a Tailândia nas cadeias globais de suprimento. A produção automotiva, por exemplo, é a maior do Sudeste Asiático e posiciona-se entre as dez maiores do mundo. A economia tailandesa crescera 2.5% em 2015 e, de acordo com as expectativas do mercado, deverá subir ao patamar de 3.2% este ano graças ao aumento do consumo privado e de políticas fiscais e monetárias, afirma o vice-diretor gerente do FMI, Mitsushiro Furusawa. Em dezembro, a BRF anunciou entendimentos para a aquisição da Golden Foods Siam (GFS), terceira maior empresa exportadora de carne de frangos da Tailândia, focada na exportação de produtos cozidos para a Europa, o Japão e o Sudeste Asiático. O investimento de US$ 360 milhões da BRF na Tailândia é o maior já realizado por uma empresa brasileira naquele país.

Como fazer?

Cabe ao Governo Federal, por um lado, encontrar medidas de facilitação de comércio e redução de barreiras, o que pode incluir, mas não se limita a, acordos de eliminação de tarifas. É o caso, por exemplo, da negociação, em andamento, com a Índia para a expansão do acordo de complementação econômica vigente entre MERCOSUL e o país asiático. Há, no entanto, uma gama de medidas – não limitadas pelo MERCOSUL – que o Brasil pode buscar em cooperações bilaterais para facilitar investimentos, registros de patentes, dentre outros, como recentemente realizados com os Estados Unidos (http://www.barralmjorge.com.br/pagina.php?id=1442).  O exemplo da BRF, por outro lado, é um caso de sucesso que leva à outra alternativa ainda mais ágil: a liderança do setor privado nestas iniciativas.

 

*Originalmente publicado em: http://barralmjorge.com.br/cpt_revistas/dez-2015-ano-1-ed-3/

 

 


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