Entrevista com Elizabeth Farina, Diretora-Presidente da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (UNICA)

 

Por: Elisa Diniz, Verônica Prates, Renata Amaral

Edição: Camilla Azeredo

 

Estamos no mês das mulheres e para homenagear essa classe tão forte e lutadora, a sessão Entrevista BMJ dessa edição teve o prazer de conversar com a Diretora-Presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Elizabeth Farina.

Economista, formada pela Universidade de São Paulo (USP), Elizabeth é professora titular aposentada da Faculdade de Economia, Administração e Ciências Contábeis da Universidade de São Paulo (FEA/USP), onde foi chefe do Departamento de Economia e também presidente da Comissão de Pós-Graduação.

Seu contato com o mundo do agronegócio começou ainda estudante, durante um estágio na Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), fazendo levantamento e sistematização de dados do setor de laticínios. O assunto despertou o interesse de Elizabeth, que escolheu como tema de seu doutorado “A Regulamentação do Setor de Leite e Laticínios no Brasil”. Por mais de dez anos foi vice-coordenadora do Programa de Estudos dos Negócios do Sistema Agroindustrial (Pensa) da FEA/USP, uma ação em conjunto com a Faculdade de Administração, que visava promover maior aproximação entre a academia e o setor privado.

Sua experiência na área de organização industrial ao longo dos anos se concentrou principalmente em temas ligados à defesa da concorrência, estratégias de concorrência e competitividade, especialmente para atividades ligadas à indústria de alimentos e agronegócio. Essa experiência a capacitou para assumir a presidência do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) de 2004 a 2008. Na Unica desde 2012, Elizabeth é também membro do Conselho Superior de Economia da FIESP (COSEC), do Conselho Superior de Agronegócio da FIESP (COSAG) e da Comissão Externa de Avaliação do INSPER.

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Boletim BMJ: Olhando de fora, tem-se a impressão que o ambiente de agronegócio é muito mais masculino, ou seja, dominado pelos homens. É verdade?

Elizabeth: É verdade, mas não sei se é diferente dos outros setores. Eu não tenho um estudo estatístico para te afirmar se o agro tem relativamente mais homens do que mulheres comparado a outros setores. Mas podemos dizer na maioria dos setores a participação feminina é crescente. Entretanto, percebo que essa presença vai decrescendo à medida que se vai avançando nos níveis hierárquicos.

Eu escolhi uma carreira, de economista, que já é um meio muito masculino. Eu fui três vezes chefe do Departamento de Economia da USP e posso contar nos dedos de uma mão quantas mulheres já ocuparam esse cargo.

 

Boletim BMJ: Você mencionou que à medida que a gente vai subindo na hierarquia das organizações a presença das mulheres vai diminuindo. A que fato você atribui isso?

E: Olha, primeiro ao tempo relativamente recente da inserção profissional da mulher e do seu reconhecimento, e até a ambição das próprias mulheres em relação à carreira. Na geração da minha mãe já tinha alguma inserção das mulheres, mas era uma questão de trabalho e renda, de necessidade, não de construir uma carreira. Depois as mulheres foram se educando mais, melhorando seu nível de escolaridade e com isso galgando novas funções.

Além disso, a nossa sociedade deixa para a mulher a tarefa de ser a responsável pela dinâmica da família. E isso faz com que o tempo e a disponibilidade da mulher para o avanço profissional seja disputado com outras atividades. Chega certo ponto da carreira no qual a mulher tem que fazer opções. Hoje em dia se pensa em ter filhos depois dos 30, mas no meu tempo quem tinha filho ia ter lá no começo dos 20. Como é que eu administro filhos, casa, compras, sou linda, cheirosa, e ainda inteligente… só sendo mulher maravilha! (risos)

 

Boletim BMJ: Tem muitos estereótipos envolvidos, mas tem discriminação também Elizabeth? Dá para dizer que você já sofreu algum tipo de discriminação no ambiente de trabalho?

Preconceito claro que tem, eu já vi acontecer, mas eu mesma diretamente não passei por momentos fortes de discriminação. Acho que a área acadêmica é mais tranquila nesse aspecto.

Mas eu tenho uma história engraçada do agronegócio que eu gosto de contar. Quando eu era vice-presidente do Pensa, o presidente da maior exportadora de café do Brasil na época me convidou para falar de questões estratégicas em uma reunião de diretoria da empresa. Quando eu cheguei lá, as secretárias me trataram muito bem, e disseram: “? Olha professora tem aqui um toalete que ontem nós fizemos uma faxina completa e trancamos”. Aí eu falei “puxa, não precisava tanto…” e as secretárias responderam: “é que aqui no andar da diretoria não tem banheiro feminino”. Acho que essa história é uma demonstração clara, de que eu realmente era uma quebra de paradigma naquele ambiente.

Boletim BMJ: Se você tivesse que elencar as principais barreiras para esse desenvolvimento da mulher no mercado de trabalho, quais seriam?

E: Algumas politicas públicas, como a licença-maternidade, acabam gerando discriminação no mercado de trabalho porque significam custo para a empresa. Então, o empregador já põe na conta do salário da mulher sua provável licença-maternidade, os dias que o filho vai doente e ela vai faltar…. Isso sempre foi uma coisa que me incomodou muito.

Atividades de cuidado, seja com o filho, seja com os pais, exigem flexibilidade no trabalho, mas não é da mulher, e sim do trabalhador. Essa relação de care giving, de dar assistência para a família é obrigação de ambos os sexos. Portanto, ambos deveriam ser protegidos pela lei para não haver discriminação e poderem assim dividir as tarefas.

Porém, algumas pesquisas mostram que as pessoas que utilizam essa proteção, independentemente do sexo, sofrem discriminação dentro do próprio trabalho. Quando você sai mais cedo para buscar o filho na escola, os colegas olham torto e na hora que tiver uma promoção, quem não vai receber é você. São muitos os desafios para ter equilíbrio entre homens e mulheres. É necessária uma mudança cultural.

 

Boletim BMJ: Você acredita que as mulheres que se sobressaem no mercado de trabalho é porque têm um comportamento mais próximo do masculino?

E: Eu acho que a gente já está ultrapassando essa fase. Imitar o comportamento o masculino não é bom porque somos diferentes deles. A gente recebe críticas de outro jeito, a gente recebe elogios de outro jeito. Muitas vezes somos menos agressivas na concorrência, na competição e perdemos oportunidades. Não porque somos piores profissionalmente, mas é porque não gostamos de bancar esse enfrentamento. A mulher tem o seu jeito de lidar com as emoções, com as relações de trabalho, que é diferente do homem.

Às vezes acontece, seja por convivência, pois há menos mulheres que interagem com você no seu nível profissional, seja porque acham que assumindo um posicionamento mais masculinizado terão mais oportunidades. E o resultado é, por exemplo, não querer atender o telefone quando a chamada é de casa. Se for um homem atendendo, as pessoas veem como uma atitude bacana: “olha só, ele se preocupa com a família”. Mas se for uma mulher, muitas vezes criticam porque tem que parar a reunião porque o filho está com febre. Então, a mesma atitude é vista de formas diferentes. Não acho uma boa ideia a mulher tentar mimetizar o comportamento masculino, mas às vezes a situação leva a isso.

 

Boletim BMJ: com duas filhas já adultas, como é para a senhora o o balanço entre o pessoal e o profissional? Qual é a influência na dedicação ao trabalho?

E: Olha, já foi bastante desafiador. Acho que o grande desafio moderno é valorizar os momentos familiares, o que é super necessário, com a menor terceirização possível. Boa parte da minha carreira tenho que agradecer às pessoas que trabalharam na minha casa e me apoiaram. Eu tinha um exército de gente: babá, empregada que respondia pela cozinha, roupa, casa; um motorista. Pessoas que me ajudaram e estão comigo há mais de 30 anos. Hoje em dia é difícil para alguém que está começando carreira ter tudo isso.

 

Boletim BMJ: Você percebe diferença entre a sua geração e a das suas filhas?

E: No meu caso, como elas mudaram de país, não tenho controle só de geração. Mas uma delas mora em Frankfurt, na Alemanha – que é uma cidade muito cosmopolita – e eu vejo ela e o marido dividindo tudo de igual para igual: lavanderia, passar a roupa, cozinhar, tomar conta da filhinha, tudo de um jeito muito particular.

Vi uma cena muito interessante na casa da minha co-sogra, que mora no interior da Alemanha. A minha filha pediu que ela a ensinasse a passar camisa.  E então, a mãe dele chamou também o filho e disse “ vem aqui você também tem que aprender”, e ensinou para os dois. Foi natural. A educação começa em casa. Você tem que ensinar seus filhos, menino ou menina, a cuidar da sua própria vida.

 

Boletim BMJ: Por fim, Elizabeth, você quer complementar com algo que a gente não tenha abordado?

E: Eu só queria dizer o seguinte: mulher maravilha não existe. A gente tem que aprender que não é perfeita. Você não pode ser uma escultura de corpo, cabelo, unha, cheirosa, e ao mesmo tempo ser profissional, e mãe, e cozinheira. Não dá pra ser tudo.

Acho que o primeiro passo pra gente diminuir a discriminação é aceitar que a gente é diferente e impor o nosso padrão. Isso é o mais desafiador. Colocar realmente: eu sou diferente, mas vou dar conta de fazer isso aqui. Não sou mulher maravilha, mas sou competente. Eu posso chegar ao mesmo lugar, mas por outros caminhos.

*Originalmente publicada em: http://barralmjorge.com.br/cpt_revistas/mar-2017-ano-2-ed-4/

 


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