Entrevista com Constanza Negri Biasutti, Gerente de Política Comercial da CNI

WIT: Conte-nos um pouco da sua trajetória profissional. Quais os caminhos que você percorreu até chegar na posição de Gerente de Política Comercial na CNI?

Cheguei ao Brasil em 2013, convidada para trabalhar na Confederação Nacional da Indústria (CNI) como Assessora Sênior da Diretoria e, em 2015, assumi a Gerência de Política Comercial.

Antes disso, durante 8 anos em Bruxelas trabalhei na Associação Europeia de Câmaras de Comércio e Indústria EUROCHAMBRES como Vice-Diretora e Chefe de Políticas do Departamento de Assuntos Internacionais, sendo responsável pelo acompanhamento da Política Comercial da UE, Investimentos e Relações com o Brasil e os EUA. Antes, havia trabalhado também para o Observatório UE – América Latina e na Cátedra Internacional OMC de Integração Regional da Universidade de Barcelona, na qual me especializei em assuntos de comércio UE – América Latina e normas da OMC de integração regional.

Me formei em Córdoba (Argentina), minha cidade natal, em Ciência Política. Sou mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Bolonha, da Itália, possuo Diploma Avançado em Estudos Europeus pelo Colégio Europeu de Parma, e pós-graduação em Relações Econômicas Internacionais – Integração Regional pela Universidade de Barcelona.

 WIT: Hoje quais são as prioridades da sua área de Política Comercial na CNI?

A retomada de um ritmo de crescimento econômico mais forte do Brasil, nos próximos anos, requer a elevação da produtividade e uma maior integração internacional das empresas.

Na área internacional da CNI, nosso entendimento é de que o Brasil precisa de uma maior e melhor integração internacional. As empresas não alcançarão a escala necessária para se tornarem mais competitivas sem acesso a mercados globais.

Isso exige uma agenda público-privada proativa e focada. Com esse objetivo, em 2016, lançamos na CNI a Agenda Internacional da Indústria para trabalharmos, em conjunto com o governo, na construção de uma agenda efetiva de comércio exterior, em busca de resultados concretos, que reflitam os interesses empresariais.

Trata-se de um amplo trabalho elaborado anualmente que reflete a visão das associações empresariais, federações de indústrias e empresas e apresenta as nossas prioridades de atuação.

Dentre os temas principais da Gerência de Política Comercial destacam-se: acesso a mercados por meio da eliminação de barreiras em terceiros países, continuidade dos avanços na agenda facilitação e desburocratização do comércio exterior e o aprimoramento da tributação do comércio exterior e do financiamento e garantias às exportações.

 WIT: Quais são as prioridades da Indústria para a próxima Ministerial da OMC em Buenos Aires?

A OMC continua sendo um fórum prioritário para a indústria brasileira. São vários os motivos, como: a pauta diversificada das exportações brasileiras, o frequente uso do órgão de solução de controvérsias e os subsídios à agricultura, setor que tem intensas relações econômicas com a indústria.

Infelizmente, o contexto não permite acordos ambiciosos para Buenos Aires, mas acreditamos que essa será uma Ministerial em que importantes temas podem ser plantados para uma colheita no futuro próximo.

Nossas prioridades são avanços na área de investimentos, comercio eletrônico, apoio domestico a subsídios e pequenas e medias empresas, que representam 54% dos empregos com carteiras assinadas, mas apenas só 1% das exportações.

WIT: Olhando de fora, tem-se a impressão que o ambiente de indústria é muito masculino, ou seja, dominado pelos homens. É verdade? Você sente isso?

 As mulheres representam 25% da mão de obra da indústria. Embora essa participação tenha crescido nos últimos anos, tenho certeza de que as mulheres precisam ser cada vez mais protagonistas tanto na força de trabalho do setor em geral quanto em posições mais chaves.

De acordo com o Fundo Monetário Internacional, as empresas com mais mulheres apresentam um aumento de 34% nos ganhos. No entanto, muitas empresas no Brasil não têm mulheres em cargos de alta administração. Como demonstrado em várias maneiras, o potencial das mulheres é enorme, precisamos mudar isso para o bem de todos.

Recentemente, a CNI organizou um evento com líderes femininas da indústria e da Câmara dos Deputados em que uma das conclusões foi que a tendência de automatização dos processos produtivos deverá contribuir com o aumento das mulheres trabalhadoras na indústria, já que elevará a participação das atividades de serviços no total da produção industrial.

Na área internacional da CNI isso já é uma realidade, quase 60% da equipe são mulheres. Tenho a sorte de trabalhar com colegas competentes e dedicadas, muitas das quais se desdobram cotidianamente na jornada dupla para dar conta do trabalho e dos filhos.

WIT: Como é, para você, em posição de gerência na CNI, conciliar a vida de mãe com a de profissional? Qual é a influência de ser mãe na dedicação ao trabalho?

Trabalho desde os 18 anos e, desde então, o único momento que fiquei sem trabalhar foi durante a minha licença-maternidade durante cinco meses. Ter filho é uma experiência incrível, uma benção realmente. Contudo, equilibrar esses dois aspectos da vida (trabalho e filho) não vem naturalmente, mas sim aos poucos com boa organização, disciplina, compartilhamento de tarefas com o meu parceiro e apoio de pessoas próximas.

Nesse processo, nós mães, desenvolvemos habilidades de gerenciamento do nosso tempo, que talvez desconhecíamos ter. Essa habilidade também significa aprender como terminar nosso dia no trabalho e começar o dia em casa.

Mas há sobretudo dois princípios que tento lembrar constantemente para me ajudar:

1) Afastar o fantasma da culpa emocional, se por momentos esse equilíbrio ficar mais difícil, está tudo bem, faz parte, é um processo de aprendizagem.

2) Me esforçar para que, nos momentos em que passo com meu filho, eu realmente esteja com ele, com 100%. O mais importante não é a quantidade de horas, mas sim a qualidade do tempo gasto.

Não existe uma resposta certa ou errada, cada mãe tem que fazer essa escolha, mas no meu caso tenho certeza de que sou melhor mãe trabalhando do que sem trabalhar. Quando temos uma carreira e nos sentimos realizadas, somos um exemplo positivo para nossos filhos. Exibimos dedicação, responsabilidade e autonomia. Acredito que mães mais felizes no trabalho criam filhos mais felizes.

É um desafio, mas traz benefícios para nós mesmas e para os nossos filhos. No fim das contas, como alguns especialistas explicam, a maternidade é um treino de liderança.

 WIT: Por fim, Constanza, você quer complementar com algo que a gente não tenha abordado?

Apesar dos progressos recentes na redução da desigualdade de gênero global na economia, persistem ainda sociedades e situações onde as mulheres são desfavorecidas. Um estudo recente do WEF estima que, no ritmo atual de mudança, levará 100 anos para alcançar essa igualdade entre homens e mulheres.

As maiores barreiras para a participação das mulheres são de natureza jurídica, regulamentar, financeira e até cultural. A sinergia entre as diferentes políticas domésticas e externas é crucial para eliminar essas disparidades.

Além da modernização das políticas, iniciativas de networking como SheTrades e Women Inside Trade são uma oportunidade única de contribuir de maneira concreta para aproximar as mulheres e fomentar a inclusão do talento feminino na economia e nos negócios. Espero que seja disseminado também em outras áreas.

O mundo precisa de homens e mulheres trabalhando juntos nas diferentes áreas da vida.

 


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