Mulheres na China: minha impressão particular

Por Thais Moretz*

Eu me formei em Comércio Exterior em 2005, na Universidade Mackenzie, em São Paulo. Dez anos depois, em 2015, recebi uma bolsa de estudos do governo chinês para fazer um mestrado em Economia Política em Xangai. Já conhecia a China e sabia das dificuldades que enfrentaria, mas fui preparada para o desafio e determinada a vencê-lo. Fui motivada pela necessidade profissional e o desejo pessoal de me aprofundar no mercado, conhecer melhor a cultura, o idioma e os costumes locais.

Lá, não trabalhei. Apesar da Apex-Brasil, onde trabalho desde 2010, ter escritório no local, fiquei licenciada do meu emprego ao longo dos dois anos de curso. Fiz um estágio no Centro de Estudos dos BRICS, da Universidade FUDAN, e participei de algumas conferências acadêmicas, em Xangai, Guangzhou, Pequim e também na Rússia. Gostaria, claro, de ter trabalhado com comércio internacional enquanto estava lá e ter vivenciado o “doing business”, mas acabei focando nos estudos, e a interação com os professores, os colegas e os livros também me ensinou bastante.

Acumulei MUITAS estórias e, por isso, um dos meus projetos para o futuro próximo é o lançamento de um livro, que estou terminando de escrever. Especialmente para este blog, portanto, trago, a pedidos, alguns insights pessoais sobre a questão de gênero na China. Ressalto que são acontecimentos que observei e vivenciei, e, portanto, um relato sem nenhuma técnica apurada de pesquisa, conforme começo a seguir.

Em Xangai, fiz muitas amizades e a maioria delas eram mulheres. O mundo todo está indo para Xangai e, por isso, conheci pessoas de todos os tipos, comportamentos, culturas e religiões. Uma indiana, chamada Maha, tinha personalidade bem forte. Gostava de falar, debater e se expor. A via como uma mulher corajosa e uma líder em potencial. Outra, a Aziza, era uma muçulmana do Cazaquistão. No primeiro semestre, era percebida pelos professores como a mais dedicada da turma. Chegou a ganhar um prêmio da escola por esse motivo. Depois, ela se casou, e então seu desempenho na escola caiu vertiginosamente. Ela também se afastou das amigas. Quando perguntei se estava tudo bem, me disse que sim, que simplesmente tinha que se dedicar em primeiro lugar ao marido, fazer o jantar e o almoço para ele e estar sempre em casa antes dele chegar, para poder abrir a porta.

Além dela, tinha também a Sadia, muçulmana ainda mais tradicional, que usava a burka, não conversava com homens e participava pouco dos debates na sala de aula. No segundo ano do curso, ela engravidou. Quando lhe perguntei se já tinha escolhido o nome do bebê, me disse que isso era uma atribuição para a família do marido e que sua sogra iria, no tempo certo, escolher. Nem Sadia nem Aziza ao longo dos dois anos de curso demostraram qualquer insatisfação com a cultura ao qual pertenciam, e, por esse motivo, apesar de não concordar com muitas das coisas que diziam e faziam, acabava aceitando essa diferença de percepção.

Chinesa mesmo, tive uma grande amiga, a Sandra, seu nome americanizado que todas as chinesas adotam para interagir com os estrangeiros. A conheci nas férias, em uma viagem que fiz às Maldivas. Ela era bem independente. Assim como eu, também viajara sozinha. Enquanto o marido estava em Shengzhen, cuidando dos negócios e dos filhos, ela foi para a praia porque estava precisando de uma pausa na rotina. Tinha dinheiro e coragem para fazer e acontecer. Depois ela foi até Xangai para passar o réveillon comigo.

Pelo que percebi, chinesas como a Sandra eram a exceção. A maioria das chinesas que conheci tinha um perfil submisso. E, na China, a sociedade ainda é bem tradicional. Casamento gay, por exemplo, não é permitido. A homossexualidade é vista por uma grande massa como perversão. Mulher que não se casa antes dos trinta é chamada 剩女 (shèngnǚ), termo que é literalmente traduzido para “left over women”, ou “a sobra”. E esse termo é usado a quatro ventos, como se fosse uma expressão normal e inofensiva.

O medo que as chinesas têm de ficar sozinhas é absurdo. Conheci uma menina de vinte e poucos anos que estava na graduação e já frequentava psicólogos, para administrar o medo de não arrumar marido. Em Xangai, alguns pais desesperados chegam a se reunir em uma praça popular, levando fotos de suas filhas solteiras, para ver se dão uma ajudinha e conseguem encontrar alguém disposto a se casar com elas. Não sei se o ritual é sério mesmo, ou se, com o tempo, acabou virando uma diversão e um evento para atrair estrangeiros curiosos, que vão lá para dar risada e tirar fotos.

Apesar de Xangai concentrar um número elevado de expatriados ocidentais, o choque entre oriente e ocidente ainda existe. Oriental é exótico aos olhos do ocidental e vice-versa. Todos os americanos do meu curso queriam namorar chinesas. Homem chinês é louco para namorar ou se aventurar com mulher ocidental. Muitas meninas ocidentais trabalham como “modelos” nas horas extras, indo a karaokês chineses, para literalmente “mostrar a face”, ou seja, aparentar que o local é frequentado por mulheres ocidentais e por isso ser um tipo de isca para atrair clientes chineses homens, que gastam mais dinheiro. Esses karaokês pagam bem pouco para as modelos, mas elas acabam saindo com os chineses depois, que, se forem ricos, não economizam nos presentes.

Na rua, uma vez, fui abordada por um chinês que me ofereceu uma boa grana para ir jantar com ele. Obviamente, recusei a investida. Algumas meninas mais jovens e imaturas acabam não resistindo. Infelizmente, esse tipo de situação é recorrente nesse encontro de civilizações. Diversas amigas experimentaram situação similar. Felizmente, também conheci algumas Sandras, que me mostraram que é possível criar uma aproximação entre os dois extremos do mundo de uma forma bem mais natural e verdadeira.

No Ministério do Comércio, no CCPIT, em outros órgãos governamentais e empresas privadas que visitei também encontrei mulheres chinesas muito ativas nas reuniões. Soube que no Banco dos BRICS, o NDB, também tem algumas chinesas e conheci uma brasileira que está trabalhando lá. Essas são, em grande maioria, mulheres fortes, inteligentes e elegantes que se empenham na profissão em um ambiente que ainda é essencialmente machista.

Das brasileiras que conheci, a maioria estava lá para trabalhar como dançarina, modelo, maquiadora e cabeleireira. Tem muita gente se aventurando na China puramente com o anseio de viver a vida e ganhar dinheiro. E, de fato, Xangai é uma tentação. Tem oportunidades e desafios para todos os gostos. Outro grupo interessante é daquelas que foram para acompanhar os maridos que trabalham em multinacionais e foram transferidos para a China. Essas, muitas vezes, vivem em um mundo à parte, com motorista e muito luxo, sequer se esforçam para aprender o mandarim, pois não precisam, e se viram no dia a dia com um inglês muitas vezes macarrônico. São poucas as que estão lá sozinhas para estudar ou atuar como executivas em cargos de chefia.

Foi legal conhecer todos esses tipos. Em relação a mim, levei os estudos a sério e busquei o meu desenvolvimento. Me cerquei de pessoas competentes. Entrei para um grupo de pesquisa acadêmica, me dediquei bastante ao mandarim e às minhas apresentações do mestrado, que eram muitas. Fui eleita pela turma como a aluna de excelência do curso.

De volta ao Brasil, percebo que a diferença é que aqui temos o poder de botar a boca no trombone. Na China, as mulheres se reprimem muito. O feminismo não chegou da maneira que está por aqui. Aliás, uma das melhores aulas que tive foi sobre como o governo chinês monitora as mídias sociais. De fato, a censura é gigante e eles reprimem todo e qualquer burburinho que possa resultar em um “motim”. O único protesto que vi foi sobre uma lei de reforma urbana que impediria algumas propriedades privadas de terem também “lojinhas”.

Por aqui, as mulheres (e a população em geral) estão fazendo muito barulho. Só que mais do que protestar, precisamos partir para a ação. Gostei do Women Inside Trade porque o objetivo é mostrar o conteúdo intelectual que temos. Não estamos aqui somente para discutir o empoderamento das mulheres, mas para mostrar o nosso trabalho que já está em andamento, nossas ideias, nos unirmos, fortalecermos nossas conexões e nos ajudarmos. Somos mulheres que já trabalham com comércio internacional, mulheres que se capacitam diariamente, que já venceram desafios e que estão aqui brigando de igual para igual com os homens no mercado de trabalho.

Agradeço imensamente pelo convite em fazer parte do Women Inside Trade e poder contar um pouquinho da minha experiência na China. Pretendo compartilhar, nos próximos posts, informações mais detalhadas que aprendi no curso, minhas ideias sobre os desafios comerciais entre o Brasil e a China, oportunidades de negócios, como é o lobby na China, entre outros temas que se relacionam com comércio internacional.

Muito obrigada!

*Thais Moretz é analista de comércio internacional, com foco no mercado asiático.

 


Um comentário sobre “Mulheres na China: minha impressão particular

  1.  Pra mim é quase sempre “esquisito” ler um texto escrito por alguém com tão pouca vivência de China. Alguns equívocos se repetem por pura falta de pesquisa e até mesmo de experiência, outros por comodismo em repetir o que “disseram” sem averiguação.
    Alguns pontos são extremamente taxativos enquanto outros são vagos e cheios de “eus”. Chega a soar como provocação e até desrespeitoso por não condizer com a realidade da maioria das mulheres que vivem na China como expatriadas.
    É por causa de textos como esse que as pessoas ainda nos perguntam se comemos cachorro todos os dias.
    Nos meus 12 anos de Shanghai, eu não me atreveria a escrever sobre “ Mulheres na China”.

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