Women Inside Trade: gênero na pauta do comércio internacional no Brasil

Igualdade de gênero é um direito humano, e a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu a igualdade de gênero como o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável nº 5, conclamando todos os países membros a comprometerem-se com este objetivo até 2030. De acordo com a ONU, a desigualdade de gênero persiste em todo o mundo, privando mulheres e meninas de seus direitos e oportunidades básicas.

No comércio internacional, a discussão sobre a igualdade de gênero foi um dos temas de maior destaque da área no ano de 2017. Além de ter sido um dos temas centrais do Fórum Público da Organização Mundial do Comércio (OMC) do último ano em Genebra, a assinatura de uma Declaração Conjunta sobre gênero por mais de 120 países na 11ª Conferência Ministerial da OMC em Buenos Aires em dezembro passado é um claro sinal sobre a dimensão que a discussão tem tomado em âmbito internacional.

Em termos gerais, existe um entendimento comum de que o comércio internacional tem sido benéfico para as mulheres ao longo dos anos, especialmente no que diz respeito a criação de empregos. Um relatório divulgado em 2015 pelo McKinsey Global Institute revelou que, em promovendo a igualdade das mulheres, uma média de US$ 12 trilhões poderiam ser adicionados ao PIB global até 2025. Além disso, o relatório é categórico em afirmar que “se as mulheres – que representam a metade da população em idade produtiva em todo o mundo – não alcançam seu potencial econômico total, a economia global sofrerá”.

Através do comércio internacional, oportunidades econômicas são criadas para as mulheres (e, claro, também para os homens), e mais empregos contribuem para estimular o desenvolvimento econômico dos países. Porém, de acordo com um relatório conjunto da OMC/Banco Mundial de 2015 intitulado “The Role of Trade in Ending Poverty”, a participação das mulheres no comércio internacional é dificultada por inúmeros desafios relacionados a viés de gênero e condições de trabalho desfavoráveis para as mulheres. Com efeito, o relatório enfatiza que leis e regulamentos tendenciosos em muitos países impedem que as mulheres entrem na força de trabalho ou criem uma empresa.

Neste cenário de desafios relacionados a gênero, importantes inciativas têm liderado as discussões – cada vez mais sofisticadas – ao redor do mundo. Uma delas, voltada para o combate a disparidades de gênero no ambiente económico e comercial, é a plataforma SheTrades lançada pelo International Trade Centre, que objetiva conectar um milhão de mulheres empresárias até 2020. O SheTrades proporciona uma plataforma para conectar mercados e permitir que as mulheres empresárias compartilhem informações sobre seus negócios, internacionalizem suas empresas e expandam suas redes de business partners.

Importa destacar também, no âmbito de negociações internacionais entre Estados, que recentemente Chile e Canadá deram exemplo adicionando um capítulo sobre comércio e gênero a fim de modernizar o Acordo de Livre Comércio entre os países, bem como incluir uma perspectiva de gênero na promoção de um crescimento econômico inclusivo. Infelizmente, esse é um dos únicos exemplos de que se tem notícia, e as discussões de gênero em negociações de acordos internacionais ainda são uma novidade com pouca receptividade.

No Brasil, em que pese a presença de mulheres brilhantes em cadeiras de comando do alto escalão de país, além de inúmeras profissionais dos setores público e privado que lideram negociações internacionais com maestria no Brasil e no exterior, claramente não há consciência sobre a importância de se falar no tema, e mulheres ainda compartilham de muitas experiências frustrantes no campo profissional a que são expostas simplesmente por serem mulheres.

É nesse contexto que surgiu a inspiração para a criação do Women Inside Trade. Inspirado em iniciativas internacionais a exemplo do próprio SheTrades, o Women Inside Trade nasceu em julho de 2017 em Brasília com a intenção de dar publicidade aos trabalhos de alto nível realizados por mulheres que atuam no comércio internacional, trazer constantes atualizações sobre temas relevantes e atuais, criar uma rede de apoio, além de chamar a atenção para o gap de gênero que ainda existe no Brasil (e no mundo) quando o assunto é comércio internacional.

A partir de conversas e reflexões recorrentes sobre o pouco espaço para as mulheres num ambiente extremamente masculino como o de comércio internacional, o grupo de profissionais que coordena esta iniciativa resolveu bancar a ideia de dar mais visibilidade ao trabalho realizado por mulheres no Brasil e no exterior.

Dentre as muitas surpresas que o blog e a iniciativa como um todo tem nos proporcionado, vale destacar a incrível receptividade e a ampla rede de apoio feminino que se formou rapidamente com a criação do blog e das mídias sociais, possivelmente reflexo da carência de espaços como este para discutir questões de gênero de forma séria no Brasil. Para se ter uma ideia, em que pese a maior parte das participantes estarem baseadas em Brasília ou São Paulo, hoje o Women Inside Trade conta com participantes brasileiras em diversas cidades do mundo como Genebra, Pequim, Bruxelas, Maastricht, Lima, Abu Dhabi, Washington DC, entre outras.

Como consequência da receptividade com que muitas profissionais aderiram a ideia do Women Inside Trade nos seus primeiros seis meses de vida, e com a riqueza de ideias e apoio que temos recebido ao longo do tempo, 2018 promete ser um ano de voos mais altos. Estão na programação eventos profissionais, muitas publicações, happy hours, reuniões de trabalho, tudo com a intenção de conectar profissionais, criar espaços de discussão, e colocar questões de gênero e comércio internacional na pauta do Brasil.

Para nós está claro que políticas econômicas, incluindo a política comercial, são instrumentos poderosos para traduzir as aspirações de igualdade de gênero na realidade, e ações nesse sentido devem ser coordenadas e convergentes. Ainda não sabemos que tipo de impacto podemos concretamente causar na discussão sobre estes temas no Brasil, mas enquanto nos sentirmos chamadas a agir, o Women Inside Trade permanecerá disponível e aberto a dar voz às mulheres do comércio internacional brasileiro.

*Originalmente publicado no Portal Comex do Brasil.

* Renata Amaral é idealizadora e Co-fundadora ado Women Inside Trade. Doutora em Direito do Comércio Internacional e Diretora ade Comércio Internacional na Barral M Jorge Consultores Associados.


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