Caros líderes, vamos falar sobre mulheres?

Comentários como os proferidos pelo Presidente da República Jair Bolsonaro e pelo Ministro da Economia Paulo Guedes em relação à primeira-dama da França, a Senhora Brigitte Macron, vão além de ofensas pessoais – repreensíveis por si só pelo cargo que ambos ocupam, mas atingem a todas as mulheres de forma mais profunda.

Há quem diga que o tema não merecia a atenção midiática que teve, que se trata de distração de assuntos mais relevantes como a agenda econômica. Nós discordamos. Até porque, igualdade de gênero é também uma questão econômica.

O julgamento de qualquer pessoa em função da sua aparência contraria o respeito à dignidade humana. Tanto pior, a manifestação de julgamento sobre a aparência de uma mulher por uma autoridade pública normaliza e reforça na sociedade traços machistas que, em última instância, restringem o desenvolvimento das mulheres.

O reconhecimento do impacto negativo desse tipo de discurso é o primeiro passo para a adoção de ações que promovam a igualdade de gênero e, nesse sentido, parabenizamos o Ministro Paulo Guedes pelo pedido público de desculpas.

Acreditamos que o debate acerca do tema – necessariamente incluindo os homens – pode trazer luz aos padrões interiorizados, e muitas vezes inconscientemente replicados, que situam a mulher em uma posição secundária. Padrões esses que indiretamente explicam a ausência de mulheres em cargos de liderança no Brasil, a despeito de diversos estudos indicarem os prejuízos econômicos e sociais dessa exclusão.

A maior participação das mulheres na economia incrementaria o PIB mundial em US$ 28 trilhões até 2025 segundo as Nações Unidas (UNFPA). De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), as desigualdades de gênero causam, em média, uma perda de 15% da renda dos países – uma perda que, no cenário atual, o Brasil não pode custear.

Não é pauta de direita ou esquerda, é desenvolvimento.

Importa observar que o Estado brasileiro já assumiu compromissos internacionais relativos ao tema. No âmbito do G20, por exemplo, o Brasil se comprometeu a diminuir em 25% a desigualdade de gênero no mercado de trabalho até 2025.

Diante desse quadro, convidamos as lideranças masculinas da atual Administração Pública brasileira a incluir a pauta nas suas agendas.

Milhares de homens ao redor do globo já fazem isso por meio do HeforShe. Trata-se de um movimento auspicioso de solidariedade pela igualdade de gênero lançado pelas Nações Unidas. Esse pode ser um caminho, mas certamente não é o único.

Inspirada em iniciativas como essa, a Women Inside Trade (WIT) foi criada em 2017 para promover a igualdade de gênero em todas as esferas da sociedade e, em particular, no comércio internacional. A associação conta com mais de 250 mulheres profissionais – incluindo autoridades públicas, empresárias e acadêmicas, no Brasil e no exterior, além de parcerias com outras organizações.

Estamos convictas de haver profissionais do sexo feminino de extrema competência e mérito – independentemente de suas aparências – e estamos à disposição para apoiar o Governo Federal em prol de maior representatividade qualificada.

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* Integram a WIT advogadas, professoras, diplomatas, servidoras públicas de diversos ministérios e agências reguladoras, funcionárias de organismos internacionais e representantes de alto nível do setor privado de diferentes setores da economia brasileira. As opiniões aqui expressas não coincidem necessariamente com a posição das entidades a que pertencem.


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