A geopolítica do Green Deal e o agronegócio brasileiro

Por Tatiana Campos*

Europe´s man on the moon moment”. Foi assim que a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen apresentou o Green Deal, política que abrange praticamente toda a economia europeia, impactando desde a geração de energia ao consumo de alimentos. A quem se dedica estudar o assunto, estão disponíveis documentos, gráficos e cronogramas explicando como os europeus pretendem se tornar o primeiro continente com impacto zero no clima até 2050.

Entretanto, para entender o contexto no qual tal política se desenvolve e seus impactos para o Brasil é necessário considerar também dois acontecimentos recentes: a crise da União Europeia e a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris em 2019.

Não é segredo que o Brexit abalou a estrutura da União Europeia, bem como a convicção de muitos europeus no bloco. Em diversos artigos publicados, seja na Alemanha, Espanha ou no Reino Unido, não raro “Bruxelas” aparece citado como um ser quase estranho, cuja vida e interesses próprios seguem desconectados do dia-a-dia de parte dos cidadãos. Esse descolamento também pode ser notado quando se observam as eleições do Parlamento Europeu: apesar de ter subido um pouco em relação a 2014, em 2019 a participação no pleito foi da ordem de 50,66%[1] e variou muito de país a país (por exemplo: 30.75% em Portugal e 88% na Bélgica) . Cabe destacar que nas últimas eleições, inclusive, havia candidatos cuja bandeira era justamente “enfraquecer” o poder do bloco de dentro. Se por um lado foram muitas as críticas, por outro as últimas eleições também deixaram claro que uma demanda havia ganhado força: a pauta ambiental.

Já do outro lado do Atlântico, em novembro de 2019, os Estados Unidos notificavam formalmente a ONU que deixariam o Acordo de Paris. A concretização da saída norte-americana abriu de vez o espaço geopolítico de “liderança na preservação do meio ambiente”. Um mês depois, em dezembro de 2019, Ursual von der Leyen anunciava o Green Deal.

E o que tudo isso tem a ver com o agronegócio brasileiro? Para compreender, basta uma frase do agora já conhecido “Farm to Fork”, braço da política agro-alimentar do Green Deal:

“Now European food should also become the global standard for sustainability”[2]

Com essas palavras, portanto, a Europa deixa claro seu interesse em se tornar líder na implementação não só do Acordo de Paris, como também em ser uma espécie de guardiã da sustentabilidade em seu todo, incluindo a da produção alimentar. Na luta por ocupar esse espaço geopolítico, é natural que os Eurodeputados exijam do Brasil o cumprimento do Acordo de Paris para a ratificação do Acordo Mercosul-União Europeia. Isso não é só o que parte considerável dos eleitores que ainda acreditam no projeto europeu esperam de seu Parlamento, mas também necessário para a sobrevivência do próprio acordo, sobretudo após a saída norte-americana.

É com tal contexto, somado ao já conhecido protecionismo e ao mercado das chamadas “certificações e padrões privados”, que o Brasil tem que lidar. Se adicionarmos ainda a tudo isso as notícias sobre aumento do desmatamento e queimadas (as quais não tem relação com o setor agroexportador sério, é sempre bom lembrar), tudo ganha ainda mais complexidade.

Há na mesa algumas estratégias de como o Brasil poderia resgatar seu merecido lugar de fala na responsabilidade ambiental e na produção sustentável de alimentos. Entretanto, independentemente de qual seja a melhor, o ponto de partida deverá ser o entendimento de que por maiores que sejam os benefícios do Acordo Mercosul-União Europeia, fincar a bandeira azul estrelada nessa “Lua verde” recém ocupada é a prioridade de Bruxelas.

[1] https://europarl.europa.eu/election-results-2019/en/turnout/

[2] https://ec.europa.eu/food/sites/food/files/safety/docs/f2f_action-plan_2020_strategy-info_en.pdf

* Texto originalmente publicado no link.

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