Comércio Exterior: o desafio de tornar o Brasil mais competitivo

Comércio exterior, competitividade e a inserção internacional do Brasil 

 Agosto/2026.

Em um cenário internacional marcado por mudanças rápidas, novas barreiras comerciais e disputas geoeconômicas, a inserção internacional do Brasil precisa ser tratada como estratégia de Estado. Nesta edição do WIT Insights, Paula Cosims analisa os principais desafios do comércio exterior brasileiro, os fatores que limitam a internacionalização das empresas e o papel das políticas públicas na construção de uma economia mais competitiva.

1. Na sua visão, quais são os três principais desafios do comércio exterior brasileiro hoje?

O cenário externo tem mudado com grande velocidade, e esse é justamente o primeiro grande desafio: os países vêm alterando rapidamente sua forma de atuação no comércio internacional, adotando medidas como o tarifaço dos EUA, a salvaguarda da carne imposta pela China e a salvaguarda do aço aplicada pela UE, entre outras. Essas mudanças impactam diretamente o comércio exterior brasileiro e a estratégia de negócios das empresas exportadoras do país. Some a isso o fato de o Brasil contar com uma baixa cobertura de acordos comerciais preferenciais: mesmo considerando os acordos do Mercosul com UE, EFTA e Singapura, nossa rede de acordos alcança apenas 29,2% do PIB global. A maior parte do comércio brasileiro segue, portanto, sujeita às condições tarifárias padrão (regra da nação mais favorecida), enquanto concorrentes como México, Colômbia, Chile e Coreia do Sul possuem redes de acordos muito mais amplas, o que os coloca em vantagem em termos de acesso a mercados. Em um cenário global de incertezas, a previsibilidade proporcionada pelos acordos comerciais torna-se cada vez mais essencial.

O segundo desafio é o excesso de barreiras não tarifárias. Do lado das importações, o Brasil está entre os países com maior cobertura desse tipo de barreira no mundo: cerca de 86,4% das importações brasileiras estão sujeitas a algum tipo de medida potencialmente restritiva, incluindo regulamentos sanitários e fitossanitários, restrições quantitativas e exigências de licenciamento e certificação por órgãos como Inmetro e Anvisa. Do lado das exportações, mesmo que em menor % a depender do destino, as empresas brasileiras enfrentam exigências sanitárias específicas de cada mercado, certificações técnicas distintas dos padrões internacionais e, mais recentemente, barreiras ambientais como rastreabilidade de cadeias produtivas e pegada de carbono.

O terceiro é o chamado Custo Brasil: a combinação de insegurança jurídica, carga tributária elevada, complexidade regulatória e infraestrutura logística defasada, que encarece tanto a produção nacional quanto a atração de investimento estrangeiro.

2. O que tem limitado a inserção internacional das empresas brasileiras?

Um fator central é a complexidade de atender às exigências regulatórias e de certificação dos mercados de destino. Cada mercado importador tem seus próprios padrões sanitários, técnicos e, cada vez mais, socioambientais (rastreabilidade de cadeia produtiva, pegada de carbono), e adequar-se a eles exige investimento em conformidade que grandes exportadoras conseguem absorver com mais facilidade do que empresas menores. O resultado é uma pauta exportadora concentrada em poucas grandes companhias e em setores limitados, com baixa diversificação de produtos e de empresas inseridas no comércio exterior.

Outro ponto é o próprio Custo Brasil, já mencionado, que onera as empresas antes mesmo de elas chegarem ao mercado externo. A elevada carga tributária para operar no país, a complexidade do sistema fiscal e o excesso de burocracia no dia a dia da operação (processos de licenciamento, exigências documentais, obrigações acessórias) consomem tempo e recursos que poderiam ser direcionados à competitividade internacional. Some-se a isso os gargalos da infraestrutura de transportes, como rodovias em condição precária e portos com baixa eficiência operacional, que encarecem o deslocamento da mercadoria até o embarque e o frete internacional. O resultado é um produto brasileiro que chega ao exterior com um custo final mais alto, mesmo quando é competitivo em qualidade, o que reduz a margem das empresas e limita sua capacidade de competir em preço com concorrentes de outros países.

3. Quais políticas públicas tiveram maior impacto positivo sobre a competitividade do país nos últimos anos?

 A reforma tributária do consumo (Emenda Constitucional 132/2023 e a lei complementar que a regulamentou) provavelmente é a mais relevante estruturalmente. Ao substituir um sistema fragmentado e cumulativo por um IVA dual, ela tende a reduzir custos de conformidade e a eliminar distorções que hoje penalizam especialmente as exportadoras, que acumulavam créditos tributários não recuperáveis. Ainda estamos no início da transição, então o impacto pleno só será sentido ao longo da próxima década, mas a mudança de desenho já é considerada um avanço importante para as empresas atuantes no país e para a atração de investimentos estrangeiros.

A conclusão e a entrada em vigor do acordo Mercosul-União Europeia, em maio de 2026, também devem ter impacto relevante. Trata-se do maior acordo comercial já fechado pelo bloco, que amplia o acesso a um mercado de mais de 700 milhões de consumidores.

Eu mencionaria ainda a Lei nº 14.596/2023, que alinhou as regras brasileiras de preços de transferência às diretrizes da OCDE, reduzindo custos de conformidade para empresas multinacionais. Ela também é parte de um processo ainda em curso, mas muito importante: o da adesão do Brasil à organização.

4. Como equilibrar abertura comercial e fortalecimento da indústria nacional?

 A experiência internacional de países como Coreia do Sul, Chile e Taiwan mostra que essas duas agendas não são excludentes: o desenvolvimento da indústria de forma estruturada, aliado a desempenho competitivo e exposição à concorrência externa, promove benefícios econômicos e sociais no longo prazo.

Por isso, uma estratégia de inserção internacional para o Brasil deveria calibrar os instrumentos: avaliar a redução de tarifas — em especial sobre insumos e bens de capital, para não encarecer a própria cadeia produtiva doméstica —, sempre como complemento a reformas estruturais, e não como substituto delas. Isso exige que Executivo e Legislativo avancem em conjunto em uma agenda de redução de custos e desburocratização: dar sequência à reforma tributária, avançando agora sobre a tributação da folha de pagamentos, além da etapa já aprovada sobre o consumo; investir na modernização de portos, rodovias e ferrovias; e implementar políticas de formação e especialização que aumentem a produtividade da indústria brasileira.

5. Qual tema de comércio exterior deveria receber mais atenção dos candidatos e ainda está fora do debate público?

 Eu diria que não é um tema específico, mas sim a própria inserção internacional do Brasil como estratégia de Estado — a decisão de tornar uma maior participação no comércio global uma prioridade central do país. Isso significa avançar simultaneamente em várias frentes que se reforçam: ampliar a rede de acordos comerciais, modernizar a regulação, reduzir o custo de fazer negócios e aproximar o país de padrões internacionais de governança. Hoje esses temas aparecem de forma fragmentada no debate público, quando deveriam ser tratados como partes de uma mesma estratégia voltada a resultados concretos para o país inteiro.

Os benefícios de uma inserção internacional bem conduzida raramente são associados ao tema do comércio no debate público, mas são diretos: empresas mais integradas a cadeias globais tendem a inovar mais e gerar empregos de melhor qualidade; o acesso a insumos mais competitivos e a pressão saudável por produtividade ajudam a baratear produtos e aliviar o custo de vida das famílias; a maior abertura atrai investimento para setores estratégicos, como transição energética e economia verde; e, por fim, um Brasil mais inserido ganha voz nas mesas onde se definem as regras que vão moldar o comércio, o clima e a tecnologia nas próximas décadas. É esse pacote que ainda falta colocar no centro da conversa pública.